sábado, 4 de julho de 2009

Une - História de Sucesso

Crônica
A viagem para o Congresso de reconstrução da UNE
Thais Sauaya Pereira, 2º ano de Jornalismo

A viagem para o Congresso de reconstrução da UNE
Thais Sauaya Pereira, 2º ano de Jornalismo

Era um momento histórico:dis-cutíamos socialismo,a guerrilha,a ditadura, as drogas...
Saímos de São Paulo, no dia 27 de maio de 1979, rumo ao Congresso de Reconstrução da UNE, que se realizaria nos dias 29 e 30 em Salvador. Éramos muitos, em muitos ônibus, não me lembro quantos – talvez uns 100. No meu ônibus, cerca de 40 estudantes, representantes dos “centrinhos” da USP, como costumávamos chamar os Centros Acadêmicos.
Na ansiedade esfuziante, não diferíamos muito dos ônibus de excursão do ginásio, nem daqueles das torcidas de futebol. No entanto, tínhamos consciência de que aquele era um momento histórico: discutíamos com paixão o socialismo, a guerrilha, a ditadura, os rachas nas organizações clandestinas, os professores, as relações afetivas, o aborto, a falta de grana, o amor livre, morar sem os pais, as drogas, o cinema, Marx, Lenin, Engels, Trotsky, Stálin, Brecht, Chaplin, Glauber, Vittorio de Sica... enfim, o mundo. Muitos dos que estavam ali eram, como eu, da tendência. Viviam também o sedutor processo de incorporação às organizações clandestinas. O slogan “A UNE somos nós, nossa força e nossa voz” era repetido ininterruptamente.
No ônibus, delegados eleitos da Biologia, Ciências Sociais, Geografia, Geologia, História, Letras, Psicologia e Química, prontos para enfrentar quase 40 horas de viagem – na verdade, durou mais de 50 – que nos levaria ao congresso. Sabíamos que havia riscos: a polícia estava presente nas principais estradas: volta e meia paravam os ônibus e revistavam todos de forma intimidatória. As notícias chegavam e eram atualizadas a cada parada na estrada – na época não havia celular – e então tínhamos informes de amigos, conhecidos, lideranças, companheiros de tendência e das organizações clandestinas, das quais éramos, em boa parte, militantes ou simpatizantes em processo de recrutamento.
Para circular as novidades, nosso ônibus criou a Rádio Quatrocientos Libre, que, além das notícias, também “veiculava” muitas músicas. O repertório era bastante variado, mas as principais eram produções da Geologia, escola que era famosa pelas baixarias musicadas e pelos apelidos criados num ambiente onde, entre dez alunos, nove eram homens e apenas um era mulher.
O motorista, muito bem-humorado, nos apresentou uma fita do Ray Coniff, que se transformou no fundo musical de um grande baile que fizemos, à noite, no corredor do ônibus. As delegadas da Letras eram a Piranha 1 e a Piranha 2. A piranha 1 era encarregada de negociar com o motorista. A piranha 2 ganhou no xadrez do Henry, da Economia, que era campeão paulista.
Na chegada, ao entrarmos na avenida do Centro de Convenções, onde se realizaria o congresso, fomos recebidos em ovação pelos que lá estavam. Cantávamos o hino do 400 Libre, emprestado da Geologia. Era um contraste com os anfitriões, que cantavam o Hino Nacional e o Hino da UNE.
Só de São Paulo éramos quase 600 delegados. Ao chegarmos em Salvador, nos juntamos com os outros estudantes do Brasil inteiro, somamos então 10 mil. A cidade nos recebia agitada, em festa, mas povoada de militares e membros da tropa de choque, com escudos, capacetes, cachorros, cavalos e armas.
Eu tinha 20 anos, fazia parte da diretoria do Centro Acadêmico da Química da USP, e havia sido eleita para representar os estudantes do Instituto de Química. Era pura emoção, afinal, rumávamos para a reconstrução da UNE, colocada na clandestinidade pela ditadura militar em 1964. Em 1968, haviam sido presos 920 estudantes que realizavam o 30º Congresso da entidade, em Ibiúna (SP).
No início dos anos 70, muitos estudantes caíram nas mãos da repressão e foram seqüestrados, torturados e mortos. Nessas condições perdemos Honestino Guimarães e Alexandre Vanucchi Leme, e muitos outros estavam na clandestinidade ou no exílio. A reunião final do 3º Encontro Nacional dos Estudantes, preparatório para o Congresso, desembocou na invasão da PUC em 1977, quando 900 estudantes foram presos e 4 feridos gravemente. Todas as manifestações e greves estavam proibidas e eram violentamente reprimidas.
Ainda assim, vínhamos de lutas vitoriosas: havíamos reconstruído a UEE – União Estadual dos Estudantes e o DCE – Diretório Central dos Estudantes em vários Estados e em cidades importantes Brasil afora, reorganizado a maioria dos centros acadêmicos que a ditadura fechara, reestruturado o movimento em quase todas as grandes universidades do país. À truculência, violência, abusos, respondíamos com união, organização, democracia, coragem e esperança.
O processo de eleição dos delegados havia sido bastante satisfatório em todas as escolas: participação massiva em assembléias, com propostas muito disputadas pelas várias tendências em que nos organizávamos, tirada de delegados representativa. Nossas principais bandeiras eram pela liberdade democráticas, pela anistia, por mais verbas para a educação, pelo ensino público e gratuito para todos.
Havia também uma grande discussão: se o presidente da UNE deveria ser eleito no próprio congresso de reconstrução, por via indireta, ou se deveriam ser realizadas eleições diretas em todo o Brasil. Venceu a segunda proposta, e as eleições foram marcadas para 3 e 4 de outubro daquele mesmo ano. O congresso se chamou 31º Congresso Honestino Guimarães, em homenagem ao último presidente da UNE, eleito em 1970 e assassinado pela ditadura em 1973. As eleições que permitiram aos estudantes escolherem de forma direta a primeira diretoria da entidade, depois dos duros anos de repressão, foi mais uma evidência que a ditadura já agonizava.

Fonte: http://www.facasper.com.br/cultura/site/ensaio.php?tabela=&id=97

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